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Filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe

A Filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe-Bahia foi fundada em 13 de junho de 1880 pelo Maestro Theodoro Borges da Silva, Porfírio de Queiroz, Conrado Barbosa e um grupo de musicistas. Hoje ela é regida pelo Sr. Roque Adson Santos de Jesus e Presidida pelo Sr. Mário Chagas, tendo atualmente um corpo musical composto por 40 músicos todos provenientes de sua escolinha musical que ultrapassa os seus 50 alunos.

História

          Era final do século XIX, e na cidade de Maragogipe existia uma filarmônica com o nome de Menimosina. Esta banda de música estava com grandes questões financeiras, resultantes de uma dívida em relação a compra de instrumentos musicais, que tinha como credor, o senhor José Dias Castro. Sendo acordado pelos seus sócios e músicos a extinção desta instituição musical, foi procurado para pagamento o senhor Castro que se recusou a receber qualquer contia, e ainda permitiu que cada músico ficasse com os seus instrumentos, para assim se quisessem no futuro formarem outro grupo musical ou filarmônica.

           Então, no dia 13 de junho de 1880, alguns musicistas remanescentes da Menimosina se reuniram na casa do senhor Theodoro Borges da Silva, afim de criarem uma nova filarmônica. A partir deste encontro, foi fundada a Filarmônica Terpsícore Popular, que recebeu este nome por escolha do senhor Conrado Barbosa, que abriu um livro da mitologia grega e explicou que Terpsícore era deusa da dança e disse o seguinte: “Tratando-se de uma filarmônica, e se a música é quem faz a dança, por isso, sugiro este nome. Como não devemos envolver a nossa filarmônica em política, acrescentemos o nome Popular; de forma que será chamada assim: Terpsícore Popular. Peço a quem aprovar, o favor de ficar de pé.” (PARANHOS, 1975, pp. 21)

 

 

 

 

 


 

           

 

 

Filarmônica Terpsícore Popular no início do século XIX.

 

           Nesse período, a maioria das filarmônicas do Recôncavo Baiano, recorriam usualmente para a utilização de nomes da mitologia grega para fundação destas instituições, sendo eles Minerva, Erata, Euterpe, Lira, Terpsícore, Apolo, algumas denominações recorrentes em bandas de música neste território. Após a sua fundação, a Terpsícore Popular passou por uma fase de perseguições políticas, que se fizeram intensificadas pelos chefes locais da época que queriam de forma ditadora, impor sanções a circulação e andamento dos trabalhos da filarmônica na cidade de Maragogipe.

                 Alguns destes relatos, estão contidos em um documento intitulado de “Pequenas notas sobre a fundação da Sociedade Philarmônica Terpsychore Popular”, do dia 11 de junho de 1940, entrevista realizada pelo músico Álvaro Pereira de Britto, ao último dos sócios fundadores, o senhor José Pereira de Brito. Neste documento, o senhor José Britto relata a repressão política que a instituição recebia nos seus anos iniciais:

Havendo o Dr. Arsénio Seixas oferecido um dobrado à Terpsychore, não porque fosse partidário, e sim porque achava que ella tocava melhor que a outra filarmônica. E tendo esse senhor adoecido e de volta da Capital, já em convalescença, por ocasião da festa do Padroeiro, cuja festa, neste ano, quem tocava era a Terpsychore, e cujo palanque era na frente da Matriz, junto ao cruzeiro, resolveu a Terpsychore fazer uma manifestação ao senhor Dr. Arsénio Seixas e executou o dobrado para elle ouvir. O Cel. Mello, chefe local, não podia suportar que a Terpsychore passasse por sua porta tocando, apesar de ser correligionário do Dr. Arsénio, e mandou buscar na roça e no seu engenho, no Topá, quantos negros e assassinos pudessem aqui acharem só a fim de matar os músicos, conforme era a frase por eles dita. (BRITTO, 1940)

 

                   Outro político da cidade que perseguiu a filarmônica foi o Dr. Flaviano Amado de Souza (Intendente entre 1891-1894), que trouxe um delegado de polícia para a cidade que era só saber que a banda estava ensaiando, mandava prender os adeptos que estavam na porta assistindo os ensaios, ou então, obrigavam os mesmos a assistir os ensaios de dentro da sede. Em outras ocasiões em que a Terpsícore se apresentava no teatro, chegava à intimação proibindo de o evento acontecer, tendo a filarmônica que se recolher sem tocar até a sua sede. (PARANHOS, 1975)

                Além de perseguições políticas, a rivalidade entre a filarmônica 2 de julho de Maragogipe que é chamada de a “outra” banda e a Terpsícore Popular era grande, chegando muitas das vezes as vias de fato e resultando até em morte. Uma dessas situações também é descrita na entrevista escrita por Álvaro Britto, que apresenta a inauguração de um novo fardamento no ano de 07 de dezembro de 1902, com uma missa em homenagem a Nossa Senhora da Conceição assistida pela Terpsícore.

Como era natural, tinha que haver a passeata à tarde, os morcegos[1] organizaram uma tocata para a mesma tarde a fim de darem largas aos seus desejos sanguinários, e ao chegar o grande préstito da Terpsychore na rua do Rio, começaram os insultos, procurando a Terpsychore evitar qualquer atrito, voltou a passear em outras ruas, porém quando subia a Ladeira da Praça, vinheram em sentido contrário os morcegos e em frente logo apareceram os insultadores a exigir a volta da Terpsychore, esta no auge do enttusiasmo, não aceitou  a intimação e avançou, deu-se então uma luta fraticida: pedradas, tiros, pauladas, facadas, numa luta de vida ou morte, até que os agressores fugiram e outros se refugiaram no quartel, cuja a polícia atira contra o povo(...) (BRITTO, 1940)

 

                Nessa confusão houve vários feridos, e segundo José Britto relata em sua entrevista, alguns dias depois, várias pessoas vinheram a óbito, sendo uma delas a senhora Mariquinha Tomé, que em decorrência dos ferimentos que sofreu devido a uma garrafada que recebeu na cabeça, faleceu no dia 13 de dezembro de 1902.

                A partir de setembro de 1910, assume a regência da Filarmônica Terpsícore Popular, o maestro Heráclio Paraguassú Guerreiro, por conta do agravamento de saúde do senhor Theodoro Borges da Silva[2], que ocupava o cargo de presidente e regente da instituição, sendo considerado um grande compositor de músicas sacras, como missas, tantum-ergos e etc. Heráclio Guerreiro funde a filarmônica Terpsícore Popular, a um grupo musical que era regente e chamava-se Harpa Mariana, e a partir desse período, inicia-se um movimento de melhorias musicais na instituição.

 

Festivais de Filarmônicas: Vitórias e o título de hors-concours

            Em 1975, o Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social (SETEBRAS), resolveu realizar o 1º Festival de Filarmônicas do Interior, concurso este que contou com várias filarmônicas do Recôncavo Baiano, entre elas a Terpsícore Popular de Maragogipe. O evento foi realizado na Capital do Estado, no bairro do Campo Grande, entre os dias 17 de outubro e 15 de novembro, contando com a participação de 13 filarmônicas, sendo a apresentação da Terpsícore Popular bem sucedida, o que acabou ajudando a filarmônica a ser a vencedora deste 1º ano de festival.

            No ano de 1976, a Terpsícore volta ao Campo Grande para a 2ª edição do mesmo Festival e novamente torna-se campeã, alcançando o bicampeonato, a admiração do público e de outras filarmônicas, como a 25 de Dezembro[3], que já tinha um apreço com a banda maragogipana desde o ano de 1973, quando se encontraram pela primeira vez nas comemorações do aniversário de Independência da Bahia:

A primeira vez que as duas filarmônicas se encontram foi em uma apresentação na comemoração do aniversário de Independência da Bahia, o Dois de Julho de 1973 em Salvador. Na ocasião se apresentaram diversas bandas, mas a Terpsícore Popular chamou a atenção dos músicos de Irará pela qualidade, e eles viraram admiradores da banda de Maragogipe. A empolgação com a Filarmônica da cidade do recôncavo foi tão grande que no ano seguinte, a 25 de Dezembro convida a Terpsícore para se apresentar nos festejos da padroeira de Irará, no fim do mês de janeiro. Recortes da época diziam: “Irará e Maragogipe – sertão e recôncavo, - unidos na grandeza da Bahia para o progresso do Brasil.” (PINHEIRO, 2014, p. 72 e 73)

 

 

 

 

 

Terpsícore Popular recebendo o troféu de campeã no

1º Festival de Filarmônicas do Interior em 15 de novembro de 1975

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Bicampeonato da Terpsícore em 1976. Na foto o presidente José Paranhos

e o Orador Ronaldo Souza recebem o troféu de campeã.

 

          Em 1978, no IV Festival de Filarmônicas do Interior, a Terpsícore Popular participa novamente do concurso em busca do tricampeonato e finalmente neste ano, consegue a vitória, disputando a final com a filarmônica de Irará, tendo a Terpsícore logrado êxito contra a sua coirmã. Um dos jurados, o senhor Horst Karl Schwebel[4] em sua análise técnica escreveu que a Terpsícore entre as bandas era: “Sem dúvidas a banda mais forte de todas que já se apresentaram até agora. Equilibrada em sua instrumentação quase completa. Pena que não utilizam flautas. Instrumentistas capazes e repertório melhor que nos anos anteriores.”

          Após o tricampeonato, a filarmônica foi considerada hors-concours, não podendo participar dos concursos que seguiram nos anos posteriores. Diferente das rivalidades e embates do início do século XX, já citados anteriormente, a rivalidade entre as bandas de Maragogipe e Irará permaneceu sempre de forma sadia, sem violência, agressões e etc. Dilma Leão brinca com a disputa entre as bandas comentando que “eles lá dizem que fora de Maragogipe, a melhor é Irará. E nós aqui dizemos que fora de Irará, a melhor é Maragogipe” (PINHEIRO, 2014, p. 74)

FESTIFIR (Festival de Filarmônicas do Recôncavo)

            Após uma fase sem concursos de filarmônica na década de 80, surge em 1990 o Festival de Filarmônicas do Recôncavo, realizado em São Félix com direção do Centro Cultural Dannemann e tendo à frente da direção musical, o Maestro Fred Dantas. A Terpsícore Popular participa do Festival e se consagra campeã, sendo que uma das principais características apontadas para que isso ocorra, é o trabalho social desenvolvido através de uma escolinha musical bem estruturada, com mais de 50 alunos, e a manutenção da tradição da música originária de banda filarmônica.

                Para Antônio Félix, regente da Terpsícore na época, não era difícil formar músicos para manter a tradição em Maragogipe, afirmando que “basta dar um giro em Maragogipe e temos 50, 60 pessoas aptas a tocar[...] Eles são dali mesmo. Eles não são músicos profissionais, são amadores. São pescadores, cabeleireiros, operários, pedreiros, aposentados e estudantes. Todos de Maragogipe. Antônio Félix critica a ausência do governo que não ajuda.” (A Tarde, Bahia [Salvador], 12 de dezembro de 1990). Em relação a tradição de música de filarmônica, o maestro Fred Dantas discorre que a incorporação de composições que fogem a essa tradição, são prejudiciais e podem produzir um efeito de transformação das bandas em orquestras.

               A inclusão de certas músicas populares no repertório até que alegra, muda um pouco o clima geral da coisa, mas o excesso prejudica um pouco, por que simplesmente daqui a alguns anos a gente pode não ter tradição de bandas, as bandas terem todas se transformado em orquestras. O raciocínio é do Maestro Fred Dantas, mais uma vez, e foi comprovado durante as apresentações no festival. A exceção da Terpsícore Popular de Maragogipe, na final, todas as outras enveredaram por composições estranhas ao repertório para bandas. (A Tarde, Bahia [Salvador], 12 de dezembro de 1990)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terpsícore Popular em frente ao Centro Cultural Dannemann, após vencer o 1º Festival de

Filarmônicas do Recôncavo em 1990.

          A participação da Terpsícore Popular no Festival de Filarmônicas do Recôncavo, continuou acontecendo nos anos posteriores, até que em 1996, após conseguir o bicampeonato no festival, foi considerada hors-concours novamente, sendo proibida de participar da competição para dar possibilidade de outras filarmônicas ganharem. A volta da Terpsícore concorrendo ao título na disputa, só acontece a partir do ano de 2003, onde a banda maragogipana venceu o festival neste ano e em 2005 (consecutivamente), ficando mais uma vez proibida de competir, só fazendo apresentações especiais. Em 2016 aconteceu o último Festival de Filarmônicas do Recôncavo e mais uma vez a Terpsícore Popular conseguiu a vitória, alcançando o seu oitavo título em festivais de filarmônica na Bahia.

 

Filarmônica Terpsícore Popular: Um olhar pedagógico e social a partir da centenária escolinha musical

            Com uma tradição secular, a Terpsícore Popular participa dos festejos cívicos e religiosos em Maragogipe e por toda a Bahia, além de prestar um trabalho de inclusão social a toda comunidade maragogipana, oferecendo a crianças e adolescentes, o aprendizado da arte musical com formação em leitura de partitura e técnicas em instrumentos de maneira gratuita e ininterrupta. A escolinha musical da Terpsícore contava em 1975, com um registro de 5.401 alunos, que passaram por esta instituição desde sua fundação em 1880. Hoje os números não são exatos, mas em média, é provável que já tenha ultrapassado os quase 8.000 alunos. Segundo relatos de José Britto, em entrevista a Álvaro Britto em 1940, assim que as pessoas souberam da criação da Terpsícore ficaram em um “crescente enthusiasmo, muitos adeptos ocorreram a prestar o seu auxílio e muitos aprendizes apareceram que em poucos annos já contava a música para mais de trinta companheiros” (Britto 1940).

            É a partir desta escolinha, com um processo de ensino popular e informal, que nasceram revelações musicais em Maragogipe como Heráclio Guerreiro, Osvaldo Souza, Adherbal Gusmão, Álvaro Britto, Mamede do Rosário e tantos outros. Isso pode ser explicado pela pedagogia utilizada no âmbito do ensino-aprendizagem nas instituições filarmônicas na Bahia, que desenvolvem um trabalho considerado por alguns como tradicional, mas que é eficaz no ensino de música. Celso Benedito, citando o professor Joel Barbosa, diz que:

A instrução musical elementar de instrumentos no Brasil pode ser dividida em quatro partes. Na Primeira etapa, o professor focaliza a leitura musical; na segunda, a iniciação no instrumento – concentra-se na aquisição de habilidade instrumental; na terceira, o estudante entra para o conjunto; na quarta, tem as experiências dentro de um grupo grande. (Barbosa, 1997 Apud Benedito, 2011, p. 62)

 

                A escolinha da Terpsícore Popular, utiliza-se a mais de um século, do ensino musical baseado nas técnicas descritas anteriormente. É preciso na instituição, uma renovação periódica de músicos, pois estes estão sempre deixando a filarmônica em busca de melhores formas de vida e questões profissionais, e muitos deles, seguem a carreira musical em corporações militares. Como a filarmônica não pode parar as suas atividades, a escolinha de música é estruturada de forma a atender as necessidades da banda. Nesse sentido, a instituição promove através de uma pedagogia própria, o ensino musical, considerando as particularidades de sua comunidade.

 

          Constata-se que o mestre de filarmônica possui um programa de ensino bem estruturado, com livros e vasto material para ensinar. São esses apontamentos, essas criações próprias de exercícios, frutos da criatividade e dos grandes acervos que os mestres construíram durante a sua permanência na prática musical dentro da comunidade. Essa didática objetiva promove um processo de cognição no desenvolvimento músico-instrumental e instaura o bem-estar coletivo dos alunos (BENEDITO, 2011, p. 82)

 

                Um grande exemplo de materiais voltados para o ensino de música de filarmônica no Recôncavo, é o acervo do maestro Tranquillino Bastos, que segundo Santos Filho (2013), contém livros de teoria musical em forma de manuscritos, de sua própria autoria, obras didáticas para o ensino de música nas filarmônicas que ajudou a fundar. Santos Filho descreve que “essa literatura abordava assuntos de teoria musical, didática, composição e estruturas da formação das sociedades musicais, as filarmônicas." (SANTOS FILHO, 2013, p. 353). No que estamos de acordo, é possível que esses instrumentos pedagógicos também foram desenvolvidos aqui em Maragogipe pelos professores das instituições musicais da cidade, em busca de um aprimoramento dos seus trabalhos nas filarmônicas.

Notas

 

[1] A inauguração de um novo fardamento feito pela Terpsícore Popular, aconteceu após a instituição receber o apelido de “coruja” pela outra filarmônica da cidade, que diziam que os mesmos não tinham um fardamento novo. Após mobilização de adeptas e músicos, foi oferecido a filarmônica Terpsícore um par de corujas para ornamentação da sede, e logo depois, os integrantes se reuniram e conseguiram fazer um novo fardamento para a Terpsícore, e passaram a chamar com o apelido de “morcegos” a filarmônica coirmã. 

[2] Fundador, primeiro regente e presidente da Filarmônica Terpsícore Popular. É compositor do famoso Hino a São Bartolomeu, padroeiro da cidade. Nasceu em 1 de julho de 1856 e faleceu em 18 de dezembro de 1932.

[3] Filarmônica da Cidade de Irará, fundada em 24 de março de 1954 e ganhadora de vários festivais de filarmônica na Bahia.

[4] Nascido na Alemanha, o músico Horst Schwebel foi fundador da Banda Sinfônica da UFBA em 1980 e ocupou diversas funções administrativas na Escola de Música da UFBA. Professor aposentando da UFBA, faleceu em 2015.

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