

Heráclio Paraguassú Guerreiro
Heráclio Paraguassú[1] Guerreiro nasceu na cidade de Maragogipe em 13 de março de 1877 e faleceu no dia 18 de maio de 1950, aos 73 anos de idade. Com apenas 12 anos, entra na escolinha de música da filarmônica Terpsícore Popular de Maragogipe para aprender a arte musical, sendo que depois de um ano torna-se caixista da filarmônica. Aos 18 anos, começa a compor dobrados[2], marchas, fantasias e etc., e sendo assim, transforma-se no principal compositor da cidade de Maragogipe, tendo obras premiadas até na Europa.
Além de musicista, foi poeta, dramaturgo, jornalista e funcionário público, estando a frente por muitos anos da Coletoria Estadual na sua própria cidade, sendo afastado inesperadamente por questões políticas deste cargo, acabou movendo uma ação contra o Estado e foi novamente readmitido. O Jornal A Pétala, do dia 01 de janeiro de 1929, diz o seguinte sobre o assunto:
Maragogipe a cerca de sete annos atrás, testemunhou um fato vergonhosamente triste, oriundo da politicalha de ódios e vinganças, inerente a governos mal orientados; a administradores afeitos a traições e quejandas. Esse facto excessivamente abjecto fora a demissão do distinto cavalheiro Sr. Heráclio Paraguassú Guerreiro do cargo de Escrivão da Coletoria Estadual desta cidade, devido unicamente a pedidos pertinazes de anões da politiquice situacionista local, que encontrara manifesta fraqueza no então governador do Estado, Dr. J.J. Seabra. Demissão essa que foi uma clamorosa injustiça, muito ignóbil e muito ilegal, dada a circunstância de contar já o Sr. Heráclio Guerreiro, 19 annos de bons serviços, sem falhas e mazelas, na mesma Coletoria. (A PÉTALA [Maragogipe-BA], 01 de janeiro 1929)
Jornal "A PÉTALA", Maragogipe-BA, 01 de janeiro 1929
O maestro Fred Dantas exalta o trabalho musical deste mestre maragogipano dizendo que Guerreiro “é o orgulho da cidade baiana de Maragogipe, onde ainda hoje toca, na mesma Terpsícore Popular, um bisneto seu, com o mesmo instrumento, a caixa. Oxalá herde-lhe a verve de escrever mais de 500 músicas, sempre lindas e eficazes.” (DANTAS, 2008, p. 58).
Figura 3: Relação de 92 músicas compostas pelo maestro Heráclio Guerreiro entre os anos de 1900 e 1909.
Heráclio Guerreiro foi o músico que obteve grande destaque em Maragogipe e no Recôncavo baiano por causa da sua grande contribuição com seu trabalho musical. O memorialista Osvaldo Sá[3] em seu livro, “Vala dos Meus Dias. Vol. III.” Discorre que entre todos os intelectuais maragogipanos, Heráclio Guerreiro foi o mais notável: “[...] Heráclio era mais um afeiçoado de Euterpe que de Calíope, e ou Erato. Músico inspirado compôs inúmeros dobrados e, sem dúvida, conseguiu ele entre todos os intelectuais da terra, a admiração maior de seu povo.” (SÁ apud LESSA, 2013. p. 47)
Com um jeito “simples, modesto, despido de orgulho e amante do silêncio” (VIEIRA e RODRIGUES, 2013, pp. 152). Heráclio cativava as pessoas que o cercavam, como nos diz por exemplo, o médico Odilardo Uzeda Rodrigues[4] que o considerava como um “mavioso compositor e competente maestro”:
Quem poderá negar que Heráclio, sem perder as suas qualidades humanas é capaz de visualizar a noite dos sentidos? Se por acaso existe alguém que assim pense, por certo bastará ouvir as suas composições magistrais para se certificar desta verdade cristalina. E que outra missão tem Heráclio senão a de dar voz as ideias, e os gestos do criador? Por acaso os seus trechos musicais, as suas composições literárias não são formas de reexprimir as belezas universais? (VIEIRA e RODRIGUES, 2013, pp. 153)
Figura 4: O maestro Heráclio P. Guerreiro com amigos, o terceiro da esquerda para
a direita (com o terno mais escuro), entre os sentados à mesa. Foto tirada no 25º
Aniversário da Tipografia Peixoto, em 04 de dezembro de 1928.
O jornal Arquivo, na sua edição nº 192 de 24 de agosto de 1969, pondera a relevância e o valiosíssimo trabalho musical de Guerreiro, ao mesmo tempo que critica o esquecimento do Poder Público em relação a um personagem com tamanha expressividade musical que foi o músico maragogipano. A matéria diz que Guerreiro produziu “um cabedal de boas músicas que correm mundo, cujas peças musicais, não tendo sido registradas, hoje, outros se fizeram autores” (Arquivo [Maragogipe-BA], 24 de agosto 1969), sendo inadmissível o desmazelo com que o artista musical estava sendo tratado:
[...] existe nome de cidadão maragogipano esquecido que é imperdoável tamanha incúria do poder público, mórmente do poder legislativo municipal. Ora, Heráclio Paraguassu Guerreiro, o que foi êle, o que êste conterrâneo morto a cerca de 19 anos, representa para Maragogipe?! (ARQUIVO [Maragogipe-BA], 24 de agosto 1969)
As composições de Guerreiro ficaram imortalizadas pelas bandas filarmônicas do recôncavo baiano que até hoje tocam as suas músicas. Uma delas, o dobrado Cristo Redentor (1945), última peça composta pelo maestro, é inspirada no evangelho da Igreja Católica segundo Bartolomeu Americano[5], e ainda na atualidade, ressoa através dos acordes harmoniosos das bandas de cidades vizinha como São Félix, Cachoeira, Muritiba, Nazaré, São Gonçalo e etc. Ronaldo Souza nos diz que Heráclio Guerreiro configura ao lado de compositores baianos como Antonino do Espírito Santo, Estevam Moura, Tranquillino Bastos e Amando Nobre, “o primeiro time de musicistas, todos eles nascidos neste recôncavo da Bahia, região pródiga de belezas e de tanto talento musical.”[6]
Notas
[1] Segundo a memória local, o sobrenome Paraguassú foi dado a Heráclio Guerreiro devido ao seu nascimento ter acontecido em um passeio que seus pais fizeram, tendo dona Hermínia Guerreiro dado à luz a seu filho em um barco que navegava pelo rio Paraguassú.
[2] “Dobrado é a maneira brasileira de dizer ‘marcha militar de passo dobrado’, ou seja, uma composição com a estrutura e instrumentação da marcha militar, que não é tão lenta quanto a marcha solene, em compasso quaternário, tampouco rápida quanto as marchas de ataque.” (DANTAS, 2015, p. 64)
[3] Osvaldo Sá (1908-2002) foi um escritor maragogipano com 24 obras lançadas. Dedicou-se primordialmente em suas obras a escrever sobre a história de Maragogipe.
[4] Nascido em Cachoeira em 1913, o médico Odilardo Uzeda Rodrigues chegou a Maragogipe em 1938. Foi um dos redatores do jornal maragogipano Tribuna Popular, jornal o qual Heráclio Guerreiro também era redator. No Centro Educacional “Simões Filho” fundado em 1953, foi professor de História, sendo bastante admirado por seus alunos. Faleceu em Maragogipe em 1983.
[5] Cf. AMERICANO, Bartolomeu. Rádio Nacional Divulga Patrimônio Artístico de Heráclio Guerreiro. Jornal Arquivo, Ano 12, Nº. 119, Maragogipe, fevereiro de 1963.
[6] Ronaldo Souza, encarte do CD - Sociedade Filarmônica Terpsícore Popular, Maragogipe, 2004.

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