
A história e obras de Tranquilino Bastos (1850-1935), é um exemplo perfeito dessa hibridização, negro, filho de uma negra alforriada, Carlota Maria da Conceição e seu pai Antônio de Souza Durão (também conhecido como Bastos, região de sua origem em Portugal), imigrante português, sendo batizado na Igreja Católica Deus Menino pelo padrinho também imigrante português, Joviano José da Silva e sua esposa. Seu pai, Antônio Bastos, retorna para Portugal ainda quando Tranquilino era uma criança, ficando ele sobre a tutela de seus padrinhos. Criado com bastante severidade por seu padrinho, o que moldou sua personalidade e caráter. (Ramos, J. 2022, p.26).
Tranquilino Bastos aprendeu as primeiras noções de música “sem mestre efetivo”[1], porém se tornou um grande músico, maestro e compositor. Mesmo jovem foi convidado para tocar em eventos da cidade; iniciou sua participação em grupos como o Recreio Cachoeirano, depois participou do Coro de Santa Cecília, onde tocava clarineta. Logo depois foi chamado para Banda Marcial de São Benedito em que sua maioria era composta por ‘crioulos livres’. "Em tenra idade, fui proposto e aceito a reger um grupo de músicos, constituído em sociedade sob o título de Recreio Cachoeirano. Mais tarde, criei a banda musical da Sociedade Euterpe Ceciliana e sua orquestra” (Ramos, J. 2011, p.27-28).
Mais tarde a Euterpe Ceciliana (fundada em 22 de novembro de 1878)[2] se tornou a Lyra Ceciliana, que não apenas estava voltada para o lado religioso, mas também abolicionista. Tranquilino não era alheio às questões políticas e sociais, por isso sofreu perseguição, mesmo assim, deu continuidade a sua luta pela liberdade do povo negro e em 1884, o maestro se uniu a então Sociedade Libertadora Cachoeirana (1884); nesse mesmo ano, executou o Hino Abolicionista, composto por ele com poesia de Fortunato Tinoco e Bingree Thomé, também abolicionistas cachoeiranos.[3]
Hino Abolicionista
Brasileiros, cantai liberdade!
Nossa pátria não quer mais escravos
Os grilhões vão quebrar-se num povo
De origem somente de bravos!
Em tudo inspira a santa voz da liberdade
No mar, na selva, na imensidade
E já no céu se vê escrito em letras d’ouro
Redenção ao cativo! É seu tesouro!
O jugo do servilismo
Role em pedaços no chão
Pise altiva a liberdade!
Sobre o pó da escravidão
Abaixo a crença do velho atraso
Que dos cativos venceu-se o prazo
Quebrem-se os ferros da tirania
Sejamos todos livres um dia
Nosso trono há livre e altaneiro
Alvorar o liberto perdão
E Dom Pedro sentado no trono
Bradará liberdade à nação
Rompa-se o verso infamante
À custa de esforços mil
Deus não quer, nós não queremos
Que haja escravos no Brasil
De Rio Branco surgiu a ideia
De Souza Dantas a epopeia
Pedro Segundo, tua equidade
Seja a coroa da liberdade[4]
Quatro anos antes da Lei Áurea, o hino foi executado em assembleia datada de 19 de outubro na festividade de entrega de 14 cartas de alforria pela Sociedade Libertadora Cachoeirana.[5] No início do hino, ele convoca aos brasileiros ao reconhecimento do movimento abolicionista, tendo em vista que a escravidão é um atraso para o país, utilizando também da religião como justificativa para o fim da escravidão e que verdadeira riqueza é o fim do cativeiro, pois foi a força do homem negro responsável pelo desenvolvimento econômico do Brasil, destacando as figuras à frente do movimento abolicionista Rio Branco e Souza Dantas, conclamando Pedro Segundo o imperador da liberdade e com respeito à igualdade de diretos.
Segundo Fred Dantas, não há música de forma isolada, ou seja, sem um contexto histórico cultural[6], o autor considera a etnomusicologia um elemento importante para compreensão de uma produção musical, pois “trabalha com a ideai de que toda música é a expressão de um grupo humano, refletindo o cotidiano, necessidades e caráter de um povo”[7]. Assim, ao falar sobre o maestro Tranquilino Bastos destaca que para entender sua produção é preciso compreender o momento histórico vivido pelo músico. Além de mestre de banda, ele destaca as produções de livros sobre teorias da música e dos métodos de ensino, sendo eles: “Carta de A-bc Musical ou Compendio de Leitura Musical”, “Methodo para Afinar, com Arte, uma Banda Musical” e “Contraponto e Fuga. Philosophia da Harmonia e Composição”, ainda inéditos, que tiveram como intuito satisfazer tais carências e também expressar seus conhecimentos musicais a futuras gerações” Alves, Juvino. Apud Dantas, Fred (p.7).
Para Fred Dantas, Tranquilino Bastos foi um gênio, compositor dos mais diferentes estilos, por exemplo a marcha religiosa[8] A Cruz do Monte, harmonia[9]- Inglesina, scherzo marciable e tantas outras. “Sua escrita se caracteriza pelo uso constante de cromatismos e uma polifonia onde poucos instrumentos tenham vozes iguais, o que talvez tenha contribuído para a sua música não ser muito executada entre as bandas”. [10] É possível dizer que ele criou o ‘dobrado brasileiro’, pois inovou o dobrado que é de origem militar; leva também para a banda o ‘tangado’, no período não havia distinção entre samba e tango e ambos eram considerados ‘coisa de negro’, essa nova forma o “dobrado brasileiro” foi aperfeiçoado pela geração seguinte de músicos, muitos deles forem seus alunos: Estevam Moura, Tertuliano Santos, Heráclio Guerreiro e Amando Nobre.
Tranquilino, fez de sua vida e obra, ação em direção a liberdade do povo preto, sua inteligência e genialidade chamou atenção das elites e por ser tão incisivo e utilizar as mais diferentes táticas de resistência, uma das consequências foi enfrentar dificuldades financeiras, mas isso não foi o suficiente para barrar seu progresso e acesso, pois ele não estava sozinho, contava com amigos e outros adeptos da luta abolicionista. Em um trecho de sua autodescrição diz: "Minha vida particular tem sido conduzida pela pobreza de dinheiro, riqueza de resignação, esforçada aplicação para saber ouvir e calar convenientemente e perder a vergonha para esquecer ingratidões em vários tons da escala social." [11]
Pode-se observar que era um homem extremamente consciente de seus atos e que mesmo sofrendo impactos importantes em sua vida pessoal, financeira e emocional, estava convicto das suas escolhas. Talvez sua convicção tivesse apoiada na certeza de que não estava sozinho nessa luta, pois os registros documentais trazem outros nomes importantes que também compartilhavam de sua ambição pela liberdade do povo negro, uma prova disso é que em ata do grandioso dia de 13 de maio de 1888 da seção do Monte Pio dos Artistas Cachoeiranos, ficou registrado que no interior da sala de seções estavam reunidos grande número de pessoas, "gradas a alta sociedade, e do povo" em comemoração da Lei, e a frente da sede do Monte Pio chegou uma manifestação popular tendo a frente duas filarmônicas, acompanhada por mais de oito mil pessoas; a filarmônica Lyra Ceciliana, postada à frente do prédio cantou a canção Hino Abolicionista.
Figura 1- Ata do dia de 13 de maio de 1888
Na ata consta a participação do orador e sócio Alfredo Machado, o promotor público da comarca Ilmo. Sr Pedro Viana Alvin, o advogado José Joaquim Vilas-Boas, o primeiro secretário José Correia da Silveira e Souza. Assina a ata: "José Maria Belchior[12], Francisco Magalhães Costa, Francisco Augusto Bahia, José Machado Gomes Rocha, Eduardo F D’ Sacramento, Manuel Severiano de Jesus Soto, José Ramiro das Chagas[13]; José Feliciano de Uzeda, Manuel Pedro dos Santos Pedreira, Antônio Maria de Belchior, Antônio José de Oliveira, césar Lucio de Oliveira, Alia Candido Bahia, Januário Alves de Jesus de Souza, Luis da França e Almeida, Ramiro L. Santos, José Dem Gn ( assinatura ilegível)" [14].
A de se refletir também que no ato da promulgação da lei, torna-se mais fácil assumir posicionamento de abolicionista, por exemplo José Ramiro das Chagas, proprietário do Jornal A Ordem, Órgão do Partido Conservador, veiculava em jornal matérias de perseguição aos povos negros e suas práticas culturais africanas. Mesmo após a libertação do cativeiro este jornal deu continuidade as suas matérias racistas.[15]
Numa edição do Pequeno Jornal, onde era colunista, publicou um texto autobiográfico aos “setenta e muitos” anos de idade com título “Hontem e hoje para mim”
Figura 2- Minhas Percepções
Fonte: O Pequeno Jornal. IHGB
Tranquilino Bastos escancara as dificuldades sofridas na mocidade pelas mãos da “velhacada” política, que tudo não passou de promessas vazias, despede-se da mocidade tormentosa de privações e atrozes perseguições. Pode-se perceber que não foi nada fácil desempenhar um luta em prol da coletividade do povo preto, ser a resistência custou-lhe a vida.
O contexto social Cachoeirano possibilitou o processo de hibridização, sua relação e posicionamento geográfico deu acesso às formas artísticas europeias; forçados a uma nova cultura, os negros aprenderam a manusear novos instrumentos e ao mesmo tempo introduziram aspectos da cultura africana. Assim, os músicos de filarmônicas combinaram diferentes culturas, entre elas, italiana, francesa, alemã, portuguesa e espanhola. Tranquilino Bastos, desenvolveu em suas obras esta conformação cultural, e assim, configurou formas de resistências à escravidão no interior das filarmônicas.
Figura 3- Quadrilha de Valsa
Fonte: Ramos, Jorge. 2011 p.2
Esta figura é um exemplo desse processo de hibridização, pois ainda que desenvolvendo uma música possivelmente europeia, Tranquilino adicionou elementos africanos, já pelo título da quadrilha de valsa, na imagem traz quatro negros descalços mostrando uma possível indicação social, ou seja, a condição de escravos e o piano aparentemente sem os pés fazendo uma conotação de caixão.
Originária da Europa, a quadrilha era uma dança de salão de cunho popular. Chegou no Brasil no começo dos oitocentos, desenvolvendo aqui muitas variantes. Não podemos afirmar com certeza que a quadrilha de valsa em questão é proveniente da quadrilha supracitada. No entanto, sendo a valsa uma dança, acreditamos que essa relação é provável. Nem sempre, entretanto, a “quadrilha” consta de quatro valsas escritas em série, (cinco, por exemplo, no caso de Os Africanos de Manoel Tranquilino Bastos), podendo ter introdução e Coda. (Leoni, Denise. p.242)
Assim, a produção do cachoeirano, desenvolveu uma síntese cultural marcada pelo discurso social, criticando a exploração do homem negro e valorizando a da cultura africana. Segundo Marcos Napolitano (2002), ser músico em meados do século XIX era considerado ‘ofício de preto’, não era visto como um dom. Tranquilino Bastos superou essa prerrogativa com tamanha genialidade e obteve reconhecimento internacional mesmo sem nunca ter saído do país.
Bastos escreveu 10 livros didáticos para o aprendizado de música. Em seu livro O Manual Completo do Diretor de Música ou Tratado de Organização das Sociedades Musicais Civis, afirma que a filarmônica “só a ela é dado os elementos importantes: moralidade, ensinamento, caridade e filantropia”[16]. Além de ajudar na formação da Sociedade Orfeica Lyra Ceciliana, contribuiu também para a formação da Filarmônica Comercial e da Harpa Sanfelixta; em São Felix, da Sociedade Filarmônica Vitoria; em Feira de Santana, e da Sociedade Musical Lyra de São Gonçalo em São Gonçalo.[17] Contribuiu de forma decisiva na fundação de O Pequeno Jornal, periódico com tendências anarquistas.
Foi responsável, entre o início dos anos 1920 até 1935, pela coluna intitulada “Minhas Percepções”, um espaço que tratava dos mais diversos assuntos.[18] Tranquilino Bastos, filosofava sobre quase tudo em O Pequeno Jornal. Sua coluna reproduzia pensamentos do cotidiano que aconselhavam o cidadão e ajudavam a este a ver outras perspectivas. Em 09 de maio de 1926, Bastos publicou um artigo que recebeu o título de “Pátria”.
O Homem virtuoso e sábio não tem pátria porque a sua pátria é o mundo’. Sócrates Para o homem pequeno na sabedoria e na sãmoral, só tem por grande sua pátria. Differentemente: para o homem magnanim e o sábio, uma pátria é pequenina; e por quanto, ellese reconhecce filho da Terra, irmão gêmeo da humanidade, tendo por sua legítima e única pátria, por parentesco a todos os seres. A pátria exclusiva e grande dos pequenos, tem a força egoística de impedir o vôo da fraternal concepção altamente justa e humana, preceituada e esculpida neste resplandecente mandamento: ‘Amai-vos uns aos outros como irmão.[19]
Neste texto, Tranquilino Bastos mostra um lado mais político, mesmo não apresentando vários artigos que tratassem do tema. Como se pode perceber o maestro faz alusão ao anarquismo. Nos anos de 1920, mesmo com o surgimento do Partido Comunista do Brasil, havia ainda movimentos anarquistas pelo país.[20] Daí, a nota de Tranquilino Bastos ser atual para o período. Há ainda que se ressaltar que Tranquilino Bastos foi um dos baianos ilustres por sua intelectualidade, seus princípios morais, sua luta por uma ação libertária e por ter desenvolvido, em forma de educação, um legado importante para a sociedade cachoeirana.[21]
Notas
[1] Tranquilino Bastos e sua família, deixaram uma série de documentos, fotografias, recortes de jornais, cadernos de anotações, textos abolicionistas. Essa documentação foi dada pela ultima remanescente da família, Doralice Gomes, para o jornalista Jorge Ramos. Autor do livro O semeador de Orquestras
[2] Registro feito pelo próprio maestro, fonte Acervo Privado Jorge Ramos (APRJ)
[3] RAMOS, Jorge. O semeador de Orquestras.p.19 e
COSTA, Manuela Areias. Histórias de um maestro abolicionista: música, participação política e memórias (1884-1935) . p.33-34 In. Cultura negra vol. 2 : trajetórias e lutas de intelectuais negros / Organização de Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil. – Niterói : Eduff, 2018. - 356 p. : il. ; 21 cm. – (Pesquisas, 6b)
[4] Hino Abolicionista, Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB), Coleção Manoel Tranquilino Bastos, código 426.
[5] Atas da Sociedade Abolicionista Libertadora de Cachoeira, 1884, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), maço: 2878. Colonial e Provincial – Presidência da Província.
[6] Ramos, Jorge. Osemeador de
[7] Dantas, Fred Teoria e leitura da música para as filarmônicas 144 p.: il.
[8] – composição instrumental tocada nas longas procissões de padroeiro. Algumas dessas marchas são verdadeiras obras de arte, em harmonia e contraponto, pois, sob a mansidão do andamento religioso, o compositor podia exercitar uma escrita mais apurada. Dantas, Fred Teoria e leitura da música para as filarmônicas Dantas, Fred Teoria e leitura da música para as filarmônicas p.109
[9] ______sob esse manto abrigam-se as transcrições de ópera e música clássica, bem como uma produção mais concertante do mestre de música. p.109
[10] (Dantas, Fred, p.116-117)
[11] Trecho de suas anotações. Acervo Privado Jorge Ramos (APRJ); RAMOS, Jorge. O semeador de orquestras: histórias de um maestro abolicionista. Salvador: Solisluna, 2011, p.31
[12] “Olowô ( venerável sacerdote do Culto Afro)”. Nascimento, Cacau. A capela D’ajuda já deu o sinal. Ceao, Cachoeira.1995 p.39
[13] Proprietário do Jornal A Ordem
[14] Ata da Secção do Monte Pio dos Artistas Cachoeiranos de 13 de maio de 1888
[15] Ferreira, Edmar
[16]Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB). BASTOS, Tranquilino. Manual completo do diretor de musica ou tratado de organização das sociedades musicais civis. (transcrição)p.4.
[17]SANTOS FILHO, 2003. p. 25.
[18]RAMOS, 2011.p.125.
[19]Instituto Histórico Geográfico da Bahia (IHGB). BASTOS, Traquilino. Pátria. O Pequeno Jornal, Cachoeira. 07 mar. 1926. p.01.
[20] RODRIGUES, Edgar apud COSTA, Caio Túlio. O que é Anarquismo. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 117.
[21] Sobre “A Atenas Brasileira”, tanta gente herói e intelectual e as realizações nas diversas formas de arte ver LEITE, Rinaldo Cesar. A rainha destronada: discursos das elites sobre as grandezas e infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas. Tese (Doutorado em História Social). Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2005. p. 95-97.




